A captura de carbono chegou?

Stephan Hitz interrompeu a operação de uma máquina de aparência estranha, em uma paisagem inóspita na Islândia, e usou uma analogia de “Guerra nas Estrelas” para explicar seu trabalho de ponta na tecnologia climática. “Sinto que vim do Lado Negro para me tornar um guerreiro Jedi”, brincou enquanto se protegia do vento frio que soprava por uma área de lava resfriada e vulcões distantes.

O técnico de 37 anos, natural de Zurique, passou nove anos trabalhando nos setores aeronáutico e marítimo antes de ingressar na Climeworks, startup suíça que está tentando desfazer os danos causados por indústrias tão poluentes. “Dá uma satisfação extra saber que você está ajudando o planeta em vez de danificá-lo”, afirmou.

Hitz e sua pequena equipe de técnicos estão trabalhando na Orca, o maior dispositivo comercial de captura direta de ar (DAC, na sigla em inglês), que em setembro começou a extrair dióxido de carbono da atmosfera em um local a 30 quilômetros da capital, Reykjavik.

Enquanto o vento agitava nuvens de vapor que saíam de Hellisheidi, usina geotérmica próxima, um zumbido suave vinha da Orca, que se assemelha a quatro enormes aparelhos de ar-condicionado empilhados, cada um do tamanho de um contêiner.

Cada contêiner conta com 12 grandes ventiladores redondos alimentados por eletricidade renovável da usina geotérmica, que sugam o ar para caixas de captação de aço onde o dióxido de carbono, ou CO2, o principal gás de efeito estufa por trás do aquecimento global, liga-se quimicamente a uma substância filtrante semelhante à areia.

Quando o calor é aplicado a essa substância filtrante, ela libera o CO2, que é então misturado com água por uma empresa islandesa chamada Carbfix para criar água gaseificada potável.

Várias outras empresas estão se esforçando para retirar carbono do ar nos Estados Unidos e em outros lugares, mas só aqui, nos planaltos vulcânicos da Islândia, é que o CO2 está sendo transformado nesse líquido gasoso e injetado em rocha basáltica várias centenas de metros abaixo da superfície.

A Carbfix descobriu que sua mistura de CO2 reagirá quimicamente com o basalto e se transformará em rocha em apenas dois ou três anos, e não ao longo de séculos, como se acreditava que seria o processo de mineralização, por isso leva para o chão o CO2 que o DAC da Climeworks captura e o bombeia através de poços protegidos do ambiente por iglus de aço que poderiam facilmente servir de cenário para um filme espacial.

É uma solução permanente, ao contrário do plantio de florestas, que podem liberar seu carbono por apodrecimento, corte ou queima em um planeta em aquecimento. Alguns especialistas temem que mesmo o CO2 que outras empresas estão planejando injetar em campos vazios de petróleo e gás poderia acabar vazando, mas, uma vez que o carbono se transforma em rocha, fica parado.

A Orca é anunciada como a primeira unidade comercial de captura direta de ar do mundo porque as quatro mil toneladas de CO2 que consegue extrair a cada ano foram pagas por oito mil pessoas que se inscreveram on-line para remover carbono, e por empresas como a Stripe, a Swiss Re, a Audi e a Microsoft.

A banda pop Coldplay recentemente se juntou a essas empresas ao pagar à Climeworks por créditos voluntários de carbono para compensar parte das próprias emissões. A empresa espera um dia obter lucro, deixando seus custos abaixo do preço de venda desses créditos.

O problema é que a produção da Orca equivale a apenas três segundos das emissões anuais de CO2 da humanidade, que estão mais próximas de 40 bilhões de toneladas, mas a máquina pelo menos mostrou que o conceito de limpar o ar e colocar o carbono de volta no subsolo passou do reino da ficção científica para o da ciência.

Tarek Soliman, analista de mudanças climáticas da HSBC Global Research em Londres, disse que o que acontece em Reykjavik não é o tipo de “salto quântico” que provaria que a tecnologia pode atingir a escala e o custo necessários para ter um impacto real sobre as mudanças climáticas. “Mas é um passo nessa direção. Considerando que a captura direta do ar tem sido vista por muitas pessoas como um absurdo, isso é algo concreto que a coloca no caminho da credibilidade.”

Christoph Gebald, cofundador da Climeworks, garante que a tecnologia pode se transformar em uma indústria de trilhões de dólares nas próximas três ou quatro décadas, meta que, segundo ele, seria impulsionada se a maioria das nações se comprometesse com emissões líquidas zero até 2050. “Qualquer abordagem que leve ao zero líquido deve incluir a remoção de carbono, bem como a redução de emissões”, declarou ele de Zurique.

Gebald, homem de fala mansa de 38 anos, começou a trabalhar na captura direta de ar com um colega alemão, Jan Wurzbacher, quando estudavam engenharia mecânica na Suíça. Abriram sua empresa em 2009, mas Gebald afirmou que o grande avanço dela veio com a divulgação do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, liderado pela ONU, em 2018, que estabeleceu a necessidade de atingir emissões líquidas zero até 2050 para que o aquecimento global seja mantido a 1,5 ºC acima dos níveis pré-industriais. Além disso, um aspecto importante do relatório foi o primeiro consenso científico de que algumas emissões seriam muito difíceis de erradicar, de modo que todos os caminhos viáveis para o “zero líquido” dependeriam da remoção de emissões anteriores.

Gebald disse que as soluções baseadas em máquinas podem ter de se encarregar de metade dessa atividade, porque o potencial para a maioria das opções baseadas na natureza é limitado pela escassez de terras aráveis.

Pode parecer fantasioso passar de quatro mil toneladas por ano para cinco bilhões de toneladas suficientemente depressa para ajudar a limitar as mudanças climáticas, mas há uma comparação intrigante com o primeiro parque eólico comercial do mundo, inaugurado em 1980 na Montanha Crotched, em New Hampshire. Esse projeto consistia em 20 turbinas com uma potência combinada de 600 mil watts. Quarenta anos depois, em 2020, a capacidade eólica instalada em todo o mundo era 1,23 milhão de vezes maior, com 740 gigawatts.

O aumento da produção anual da Orca a essa mesma taxa renderia uma capacidade de remoção de cinco bilhões de toneladas de CO2 por volta de 2060. “É exatamente isso que a ciência climática pede que façamos para alcançar as metas climáticas”, apontou Gebald.

O desafio dependerá da redução de custos, que Gebald informou que agora são de cerca de US$ 600 a US$ 800 por tonelada. O aumento da produção pode reduzir esses custos para US$ 200 a US$ 300 por tonelada até 2030, e entre US$ 100 e US$ 150 por volta de 2035.

Segundo Gebald, a captura direta de ar já seria competitiva se recebesse os subsídios que ajudaram veículos elétricos e painéis solares a ser adotados e a crescer.

Uma diferença fundamental em relação à energia eólica e à solar é que elas foram impulsionadas pelo lucro, porque, uma vez que os subsídios ajudaram a torná-las competitivas, elas produziam um ativo valioso: eletricidade barata.

A principal “produção” da captura direta de ar – ajudar a salvar o planeta – deve, em vez disso, contar com apoios governamentais, como créditos de emissões e impostos sobre emissores de carbono.

Enquanto Hitz e sua equipe monitoram a Orca para aprimorar sua próxima unidade, que será dez vezes maior e deverá ser lançada em dois ou três anos, Gebald reconheceu que, em muitos aspectos, o dispositivo, destinado a operar durante uma década, alcançou seu objetivo. “Sabemos que a tecnologia funciona, portanto a principal experiência com ela foi testar o interesse do mercado na remoção de carbono, e estamos muito felizes por já ter sido contratada uma grande parte de sua capacidade de vida útil.”

A Carbfix está explorando como adaptar seu processo de mineralização a outros tipos de rocha e a usar a água do mar em locais onde a água doce é escassa.

A Carbfix foi fundada como um projeto de pesquisa em 2007 depois do incentivo do então presidente da Islândia, Olafur Ragnar Grimsson, que havia sido informado por um cientista local de que o basalto altamente poroso da Islândia poderia mineralizar o CO2 sem criar problemas sísmicos.

Grimsson consolidou seu papel de “padrinho” da Orca pouco depois de terminar seus 20 anos como presidente em 2016, quando estava no bar de um hotel de luxo para a reunião climática da ONU daquele ano em Marrakech, no Marrocos. “Ouvi um investidor americano, sentado a uma mesa, falar de uma nova empresa suíça que tinha a tecnologia para retirar carbono diretamente do ar. Então, parei e disse: ‘Ei, na Islândia sabemos como transformar essas coisas em rocha!'” Ele uniu Gebald à Carbfix e “bingo, encontramos o elo perdido”.

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