Como a Rússia está lucrando com as mudanças climáticas

Pevek, Rússia – Um porto reformado. Uma nova usina para gerar eletricidade. Estradas repavimentadas. E sobrou dinheiro para consertar a biblioteca e construir uma nova esplanada ao longo da costa do Oceano Ártico.

Globalmente, o clima que vai aquecendo é um desastre assustador, ameaçando vidas e meios de subsistência com inundações, incêndios e secas, e exigindo tremendo esforço e gastos para ser combatido.

Mas em Pevek, pequena cidade portuária no Oceano Ártico, no extremo norte da Rússia, que lucra com um boom no transporte marítimo do Ártico, o aquecimento climático é visto como uma bonança. “Eu chamaria de renascimento. Estamos em uma nova era”, disse Valentina Khristoforova, curadora de um museu de história local.

Enquanto governos em todo o mundo se mexem para eliminar os efeitos potencialmente catastróficos das mudanças climáticas, a economia do aquecimento global assume uma forma diferente na Rússia.

A terra arável está se expandindo, com agricultores plantando milho em partes da Sibéria onde antes isso não era possível. As contas de aquecimento do inverno estão diminuindo, e os pescadores russos fizeram uma modesta captura de escamudo-do-alasca em áreas descongeladas do Oceano Ártico perto do Alasca.

Em nenhum lugar as perspectivas parecem mais brilhantes do que no extremo norte da Rússia, onde as temperaturas que subiram rapidamente abriram uma série de novas possibilidades, como projetos de mineração e energia. Talvez a maior delas seja a perspectiva, já no próximo ano, do transporte marítimo ártico durante todo o ano, com navios de contêineres da “classe quebra-gelo” especialmente projetados, oferecendo uma alternativa ao Canal de Suez.Rua na cidade portuária de Pevek, no extremo norte da Rússia, 7 de outubro de 2021. (Emile Ducke / The New York Times)© Distributed by The New York Times Licensing Group Rua na cidade portuária de Pevek, no extremo norte da Rússia, 7 de outubro de 2021. (Emile Ducke / The New York Times)

A política do Kremlin em relação às mudanças climáticas é contraditória. Não é uma questão significativa na política interna. Contudo, sempre atento à imagem global da Rússia, o presidente Vladimir Putin prometeu recentemente que o país, o quarto maior emissor mundial de gases de efeito estufa e prodigioso produtor de combustíveis fósseis, se tornaria neutro em carbono até 2060.

Felizmente, porém, para Pevek e outras áreas no extremo norte, na prática a abordagem russa parece se resumir a isso: embora a mudança climática possa ser uma enorme ameaça para o futuro, por que não aproveitar as oportunidades comerciais que oferece no presente?

Do outro lado do Ártico russo, um consórcio de empresas apoiadas pelo governo tem planos de investir 735 bilhões de rublos (cerca de US$ 10 bilhões) ao longo de cinco anos para desenvolver a Passagem Nordeste, rota marítima entre o Pacífico e o Atlântico que os russos chamam de Rota do Mar do Norte. Planeja atrair o transporte marítimo entre a Ásia e a Europa, que agora atravessa o Canal de Suez, e viabilizar empreendimentos de mineração, gás natural e turismo.

Quanto mais o gelo recua, mais essas ideias de negócios fazem sentido. A cobertura de gelo mínima no verão do Oceano Ártico é cerca de um terço menor do que a média na década de 1980, quando o monitoramento começou, informaram no ano passado pesquisadores do Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo, com sede no Colorado. O oceano perdeu quase 2,6 milhões de quilômetros quadrados de gelo e espera-se que esteja basicamente livre dele no verão, mesmo no Polo Norte, por volta de meados deste século.

Pevek é um porto-chave no extremo leste desse mar que vai descongelando. Antes do grande derretimento e de suas possibilidades econômicas, era um remanso gelado, um dos muitos postos avançados moribundos do império soviético a caminho de se tornarem cidades fantasmas.

Planos de negócios passados para Pevek falharam. Um esforço para vender carne de rena para a Finlândia, por exemplo, desmoronou quando inspetores finlandeses rejeitaram o produto, de acordo com Raisa Tymoshenko, repórter do jornal local, o “Estrela do Norte”.

Apenas alguns anos atrás, a cidade e suas comunidades satélites estavam basicamente abandonadas. A população caiu de 25 mil nos tempos soviéticos para cerca de três mil agora. “Havia rumores de que a cidade acabaria”, disse Pavel Rozhkov, um dos moradores.

Mas, com o aquecimento global, a sorte mudou, e a população aumentou em cerca de 1.500 habitantes, aproveitando-se, pelo menos em um pequeno bolsão, da estratégia do Kremlin para se adaptar às mudanças – gastando onde necessário e lucrando sempre que possível.

Essa política tem seus críticos. “A Rússia está falando dos méritos de sua abordagem de adaptação porque quer aproveitar plenamente o potencial comercial de seus recursos de combustíveis fósseis. Para o país, em âmbito global, as provas sugerem que os riscos superam em muito os benefícios, por mais otimista que seja a linguagem do governo russo”, apontou Marisol Maddox, analista do Ártico do Centro Internacional para Acadêmicos Woodrow Wilson, em Washington.

O Kremlin não ignora as desvantagens do aquecimento global, reconhecendo em um decreto político de 2020 “a vulnerabilidade da população, da economia e dos recursos naturais da Rússia às consequências das mudanças climáticas”.

O plano observou que o aquecimento global exigirá adaptações dispendiosas. O governo terá de eliminar focos de incêndio em florestas recém-vulneráveis a queimadas, reforçar barragens contra inundações de rios, reconstruir habitações que colapsam devido ao derretimento do permafrost e se preparar para uma possível queda na demanda mundial por petróleo e gás natural.

A Rosatom, empresa nuclear estatal russa que coordena o investimento na rota marítima, anunciou que, embora a iniciativa se beneficie das mudanças climáticas, também ajudará a combatê-la reduzindo as emissões de navios que navegam entre a Europa e a Ásia em 23 por cento, em comparação com a rota muito mais longa de Suez.

A viagem de Busan, na Coreia do Sul, para Amsterdã, por exemplo, fica 13 dias mais curta pela Rota do Mar do Norte – economia significativa de tempo e combustível.

O tráfego de navios no Ártico russo aumentou cerca de 50 por cento no ano passado, embora ainda equivalha a apenas três por cento do tráfego pelo Canal de Suez. Mas um teste feito em fevereiro passado com um navio comercial especialmente reforçado deu provas de que a passagem pode ser atravessada no inverno, de modo que o tráfego deve aumentar bruscamente quando a rota abrir durante todo o ano que vem, declarou Yuri Trutnev, vice-primeiro-ministro, à mídia russa. “Vamos gradualmente tirar o transporte do Canal de Suez. Uma segunda opção para a humanidade certamente não vai incomodar ninguém.”

Muito dinheiro tem sido investido em projetos árticos. A Rosatom assinou em julho um acordo com a DP World, empresa de portos e logística com sede em Dubai, para desenvolver portos e uma frota de navios de contêineres da classe quebra-gelo, com casco especialmente reforçado para navegar em mares gelados.

O oceano descongelado também aumentou a rentabilidade dos empreendimentos de petróleo, gás natural e mineração, reduzindo os custos de transporte de suprimentos e produtos. Uma joint venture multibilionária da empresa russa Novatek, da francesa Total, da chinesa CNPC e de outros investidores agora exporta cerca de cinco por cento de todo o gás natural liquefeito negociado globalmente pelo Oceano Ártico.

No geral, segundo analistas, pelo menos meia dúzia de grandes empresas russas de energia, transporte e mineração vai se beneficiar do aquecimento global.

Um benefício que os habitantes de Pevek ainda não sentiram é a sensação de que o clima está realmente aquecendo. Para eles, o tempo parece frio como sempre, apesar de uma temperatura média 1,16 ºC mais quente que há 20 anos. “O aquecimento global tem sido uma vantagem do ponto de vista econômico”, comentou a bibliotecária Olga Platonova. Ainda assim, ela e outros moradores afirmam que, à luz das mudanças caras e perigosas em todo o mundo, eles não têm motivos para comemorar.

E, mesmo aqui, muitos dizem que os efeitos ambientais são incertos, citando o surgimento alarmante (para eles) nos últimos anos de um grupo de corvos barulhentos nunca visto antes.

E Platonova tinha outra queixa: “É uma pena que nossos netos e bisnetos não vejam o norte congelado como nós o vimos.”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *