EUA veem 50 veículos de jornalismo local serem lançados na pandemia

A pandemia traçou um cenário de dificuldades para a imprensa profissional, que incluem o acirramento da repressão por governos autoritários e o agravamento de dificuldades econômicas do setor. A migração digital e a valorização da demanda por informação mais confiável, por outro lado, tiveram impactos positivos –o exemplo mais recente deles vem em um levantamento do Instituto Poynter nos Estados Unidos.

De acordo com o órgão, mais de 50 veículos de jornalismo local foram lançados nos EUA em 2020 e 2021. Reportagem publicada no site da instituição, especializado em cobertura de mídia, ressalta que a crise sanitária ajudou a destacar a importância da produção de informação em comunidades americanas.

O texto observa que, além de essas Redações entrarem em operação, no período quase a mesma quantidade de novas newsletters locais passou a ser enviada. O levantamento encontrou exemplos em 27 estados e em Porto Rico, território americano no Caribe. Geórgia, Nova Jersey, Texas, Washington e Flórida lideram as estatísticas, com quatro novos veículos cada um.

“Acho que houve um reconhecimento pelos leitores de que notícias locais são importantes. A pandemia destacou essa importância como nada havia feito antes”, disse ao Poynter Penny Abernathy, professora visitante na escola de comunicação da Universidade Northwestern, em Illinois.

A afirmação encontra eco no mais recente Relatório de Mídia Digital do Instituto Reuters. O documento concluiu que veículos e profissionais se beneficiaram da demanda por informação mais confiável. “Pode ser um efeito temporário, mas em quase todos os países vemos o público valorizando mais as fontes de notícias precisas e confiáveis”, disse Nic Newman, responsável pelo estudo, em junho.

Nos EUA, ainda que a maioria dos meios digitais locais tenha surgido em áreas próximas a regiões metropolitanas, onde há mais condições econômicas e chance de os projetos obterem formas de se financiar, o Poynter também menciona lançamentos em áreas rurais.

Entre os exemplos está o The Border Belt Independent, na Carolina do Norte. Dedicado aos condados de Bladen, Columbus, Robeson e Scotland, ele se define como um site independente com foco em questões como pobreza, saúde, raça, educação e economia.

Outro ponto destacado é o surgimento de veículos que dão ênfase a audiências específicas, incluindo cobertura profissional voltada a imigrantes, à população negra e à comunidade LGBTQIA+.

Como exemplo, o PW Perspective, na Virgínia, se intitula a “voz antirracista” do estado e afirma que se dedicará a produzir reportagens, textos de opinião e noticiário local ligado às comunidades negra, latina, muçulmana e de imigrantes. “O condado de Prince William é o mais diverso da Virgínia, mas a inclusão não veio junto com essa diversidade. Por muito tempo as minorias não tiveram a voz que merecem”, diz a missão do site.

O Poynter lembra que essas aberturas de negócios se deram em paralelo a uma série de dificuldades para a imprensa profissional nos EUA, com a demissão de jornalistas, o fim de Redações físicas (forçando o trabalho remoto permanente) e principalmente o fechamento de veículos.

O próprio instituto noticiou o fim de mais de cem Redações de jornalismo local desde o início da pandemia no país –algumas delas centenárias, caso do Journal-Express, de Iowa, fundado por um amigo de Abraham Lincoln.

Reportagem do New York Times que avalioiu os efeitos da crise sanitária em jornais, revistas e veículos digitais mostrou que 37 mil funcionários de empresas de mídia nos EUA foram demitidos, dispensados ou tiveram o salário reduzido desde a chegada do coronavírus –publicado em abril do ano passado, o texto foi atualizado em setembro de 2021.

Ainda assim, o texto do Poynter destaca que cinco novos veículos afirmaram ter tido no fechamento de outros a motivação para começar. “Quando a 22nd Century Media encerrou as operações, em março de 2020, notícias locais confiáveis foram negadas de dezenas de milhares de leitores nos subúrbios de Chicago”, diz um texto do site The Record North Shore, baseado em Wilmette, Illinois.

“Três editores [da empresa fechada] se uniram com o objetivo comum de restaurar o jornalismo comunitário responsável para a região.”

No Brasil, a quarta edição do Atlas da Notícia, publicada em fevereiro deste ano, mostrou que os chamados “desertos de notícias” foram reduzidos em 5,9% em relação ao estudo divulgado em dezembro de 2019 –a transformação foi impulsionada pelo jornalismo digital.

O levantamento sobre jornalismo local no Brasil indica que o país tem 3.280 municípios sem qualquer veículo local, ou seja, sem jornal, site, blog ou emissora de rádio e TV, contra os 3.487 registrados um ano antes

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