Familiares brigam e se isolam de parentes que recusam a vacina contra Covid

ISABELLA MENON
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A tia teme que um chip seja implantado em seu braço se ela tomar a vacina contra a Covid-19. O irmão tem medo da agulha. A prima saiu do grupo do WhatsApp da família e mandou o recado para quem ficou: “são burros por tomarem algo sem eficácia”. O filho mais velho diz que não confia na vacina. E a avó crê que o imunizante não lhe cairá bem.

Essas são algumas das histórias de brasileiros que recusam o imunizante, enquanto a vacinação avança no país e a terceira dose já começa a ser aplicada em alguns estados.
Além de fomentar brigas, quem decide não tomar o imunizante acaba isolado da família, segundo os relatos ouvidos pela reportagem.

Parentes afirmam que se preocupam pela saúde dos familiares que negam a vacina e temem que eles transmitam o vírus para outras pessoas.

Os motivos são os mais variados e costumam se apoiar em informações falsas divulgadas em redes sociais. O ato de não vacinar, na maioria dos casos, está ligado àqueles que apoiam o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que, além de não ter se imunizado, já questionou inúmeras vezes a eficácia das vacinas -como em junho, quando estava em um culto, e afirmou erroneamente que elas seriam experimentais.

De acordo com infectologistas, o número de pessoas que recusam o imunizante é baixo no Brasil, se comparado aos Estados Unidos. Apesar disso, esse contingente existe e está presente entre jovens, idosos e até médicos.

Foi o que aconteceu na família do fotógrafo Tadeu Rocha, 32, que mora em Manaus. Quando a vacina começou a ser aplicada, em janeiro deste ano, sua família demonstrou um certo receio.
Mas, em pouco tempo, todos aceitaram o imunizante, exceto sua madrinha, que é médica. Ela repetiu frases já ditas por Bolsonaro para justificar a decisão, como “a vacina é experimental”, além de dizer que ela “não é cobaia”.

“Não tem quem a convença”, afirma Rocha. “E me decepciona também por ser alguém da área da saúde e que pode desestimular outras pessoas. Era para ela ser referência”, lamenta.

Apesar de triste, Rocha conta que não pretende gastar energia discutindo com a tia. “É uma pessoa que eu tenho muito carinho e amor, mas vou manter essa distância e torcer para ela mudar o pensamento”, diz.

Professora no Rio de Janeiro, Mariana Techera, 23, vive uma situação semelhante. O irmão mais velho, de 24 anos, diz não confiar no imunizante. Ela acredita que a influência para a decisão do irmão também esteja ligada à sua posição política.

A carioca diz que fica ainda mais indignada com a decisão porque a mãe deles foi internada no fim do ano passado com complicações da Covid-19 e passou o Natal e Ano-Novo em coma. “É muito egoísmo da parte dele, ainda mais depois de tudo que passamos.”
Além de Mariana, sua mãe e até amigos já tentaram convencê-lo a tomar o imunizante, mas nada adiantou. Ela agora vê no ‘passaporte da vacina’ uma esperança.

Com a cobrança do comprovante de vacinação contra a Covid-19 para a entrada em locais de uso coletivo, diz ela, pode ser que o irmão se sinta penalizado e aceite tomar a vacina.

Com a recusa, Mariana diz que não se sente confortável em ficar no mesmo cômodo que o irmão e que gostaria que sua mãe também evitasse encontros presenciais com ele, mas acha difícil de isso acontecer pois “ela tem o coração mole”.

Evitar encontros com a prima que recusou a vacina também é o que a advogada Joana (nome fictício, a pedido dela), pretende fazer. Quando a vacina começou a ser anunciada, a prima avisou a família que não tomaria. Ninguém levou muito a sério e a família imaginou que logo ela mudaria de ideia. Porém, não foi o que aconteceu.

Os tios cortaram contato, o pai brigou, mas mesmo assim nada a convenceu. Desde então, ela passou a não ser mais convidada à casa dos parentes. “Ela ficou até agressiva, saiu do grupo [do WhatsApp] da família e disse que ignorante é ‘quem acredita na vacina'”, relata Joana.
Enquanto Joana parece decidida a não encontrar a prima, Márcio (nome fictício, também a pedido) vive um impasse no interior de Santa Catarina. Sua avó de 92 anos disse que não vai se vacinar. Agentes sanitários já tentaram convencê-la e ela pediu que eles não voltassem mais, pois não vai mudar de ideia.

“Ela acredita que a vacina não lhe fará bem e diz que se for para acontecer alguma coisa pior, é porque já é a hora dela”, afirma o neto. A matriarca fica chateada que a família não a visite. Mas, às vezes, alguns cedem porque pensam que talvez não terão outros momentos com a avó, que já tem a idade avançada.

Márcio conta que a relação com a avó ficou restrita, já que ele teme encontrá-la. “Era normal ir aos finais de semana na casa dela e foram pouquíssimas vezes que vi ela depois que a pandemia começou”, diz.
No interior do Tocantins, parte da família do engenheiro João (nome fictício, a pedido) decidiu que não tomaria a vacina. Depois de entenderem a seriedade do vírus, todos foram se vacinar. Porém, após ouvir dos filhos diversas informações falsas sobre o imunizante, a tia-avó se negou e dizia ter medo que um chip fosse implantado no seu corpo.

Ela e a avó de João, que foi vacinada com as duas doses, acabaram infectadas pela Covid. A avó passou nove dias na UTI e melhorou, mas a tia morreu. “Fake news mata”, lamenta ele. “Essas pessoas deveriam ter mais consciência que a vacina não é só para mim, existe toda uma sociedade que está sofrendo há dois anos, não dá para esperar acontecer o pior”.

​Raquel Stucchi, infectologista e professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), diz que, apesar de se tratar de uma minoria, já atendeu pacientes que recusaram o imunizante.

“As pessoas inventam desculpas, como medo da reação, para não admitirem que é uma decisão política”, diz a médica. Ela considera que a solução é buscar diálogo, dando explicações sobre a eficácia dos imunizantes e detalhes sobre como tem sido a experiência da vacinação em outros países.

Também infectologista, Jamal Suleiman, do hospital Emílio Ribas, concorda com Stucchi que o argumento para as recusas são sempre frágeis. “Sim, tem efeito colateral, mas é melhor ficar com Covid-19 ou ter um mal-estar que dura, no máximo, 24 horas?”, indaga.

Suleiman disse que é preciso tentar combater esse tipo de atitude. “Se conseguirmos catar as migalhas desse processo e tentar um por um, já é um avanço”, diz o médico que também teve que convencer um dos seus familiares a se vacinar. E, depois de muita conversa, recebeu a notícia há poucas semanas de que seu parente havia, enfim, recebido o imunizante.

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