Fé cristã: Paróquia de Xapuri anuncia retomada da Festa de São Sebastião

A pandemia da Covid-19 não chegou a impedir a realização do Novenário de São Sebastião, em Xapuri, no ano passado. As celebrações foram realizadas com público bastante reduzido e a procissão, ponto alto do evento, foi substituída por uma carreata pelas ruas da cidade. Porém, a grande festa com a qual os fiéis católicos estão acostumados e que vinha sendo realizada ininterruptamente havia 118 anos não aconteceu.

Neste ano, mesmo com o crescimento de casos de Covid-19 que vem sendo noticiado e com o surto de gripe que atinge o Acre e outros estados brasileiros, a Paróquia de Xapuri pretende promover a festa do santo padroeiro da cidade nos moldes tradicionais e já anunciou que a realização deste ano será uma das maiores de todos os tempos para marcar os 120 anos de história de uma das manifestações religiosas mais antigas do estado.

O padre Antônio Menezes, pároco de Xapuri desde o começo do ano passado, anunciou, inclusive, uma novidade para este ano. A missa que é celebrada antes da grande procissão será campal e terá transmissão da TV Diocese, de Rio Branco, afiliada à Rede Nazaré de Comunicação, além de vários canais nas redes sociais. Para o sacerdote, Xapuri vai se reencontrar com o seu momento mais forte após o contratempo ocorrido no ano passado.

“Esse ano vai ter tudo, novenário, quermesse, bingos e leilões, como ocorria tradicionalmente antes da pandemia. Será a maior festa de todos os tempos. E já estamos nos programando para a transmissão da missa campal do dia 20, às 16 horas, pela TV Diocese, assim como a procissão. Para isso, estamos providenciando toda a estrutura e deslocaremos uma equipe para a cidade com o fim de fazer essa grande transmissão”, disse.

Questionado sobre o risco de os novos casos de Covid-19 e os recentes registros do surto de gripe ameaçarem mais uma vez a realização da festa, o padre Antônio Menezes disse que a igreja tem um plano alternativo para essa possibilidade, que na verdade seria a realização de uma grande carreata, como aconteceu no ano passado, mas com uma mobilização muito maior neste ano. No entanto, o líder religioso acredita que o plano da igreja dará certo.

A programação da 120ª Festa de São Sebastião começará na próxima terça-feira, dia 11 de janeiro, com a abertura do Novenário. Antes da primeira das nove celebrações, que sempre ocorre na praça que leva o nome do santo, no centro de Xapuri, na margem do Rio Acre, haverá uma também já tradicional carreata que sai de frente do Batalhão do Corpo de Bombeiros, na entrada da cidade, e termina no local da primeira novena.

Prefeitura comedida

O vigor da Festa de São Sebastião em Xapuri também depende da organização da prefeitura, que é a responsável pela programação cultural e esportiva que costuma acompanhar o calendário religioso do evento. Por conta da Covid-19 e do surto de gripe, o município está planejando as ações de maneira mais comedida que em anos anteriores por temer um repentino retorno à bandeira amarela do Comitê de Acompanhamento Especial da Covid-19.

Uma das mudanças anunciadas é a de que não serão gastos recursos públicos com a construção do chamado “Shopping Popular”, espaço destinado aos tradicionais marreteiros que compõem uma das partes mais importantes da festa. Neste ano, os próprios comerciantes pagarão o valor de R$ 250 pelos espaços de 12 m² e serão os responsáveis pela construção dos boxes segundo um modelo padronizado estabelecido pela prefeitura.

De acordo com o prefeito Ubiracy Vasconcelos, essa decisão foi tomada para que não haja o risco de recursos públicos serem usados nas estruturas e o dinheiro ser desperdiçado por uma eventual suspensão das atividades por conta de uma piora no cenário da pandemia de Covid-19 ou mesmo do surto de gripe. Ainda segundo o gestor municipal, os marreteiros que manifestaram a intenção de participar da festa estão cientes desse risco.

“Nós estamos preparando a parte da festa que cabe à prefeitura, mas com todos os cuidados que a situação que ainda enfrentamos exige. No caso dos espaços dos marreteiros a estrutura desse ano será montada de modo a não haver aquele espaço interno entre as barracas, ou seja, elas serão construídas de ‘costas’ uma para as outras para que a circulação das pessoas ocorra pelos lados externos, possibilitando menos aglomeração”, explicou.

No que diz respeito à programação cultural e esportiva elaborada pela prefeitura, vários eventos estão confirmados, com destaque para a corrida pedestre de São Sebastião e a Copa Chico Mendes que é disputada em várias modalidades esportivas na Praça da Juventude. A prefeitura ainda está fechando os detalhes de algumas apresentações musicais que estão confirmadas para acontecer depois do dia 15.

Importância para a economia local

É fato incontestável que a Festa de São Sebastião, em seu formato tradicional, é muito importante para a cidade. Ela é a fonte da renda angariada por muitos comerciantes informais do município para enfrentar todo o curso do ano. A própria paróquia de Xapuri se enquadra nessa condição, tirando dos leilões, bingos e quermesses a arrecadação com a qual se mantém e promove suas obras no decorrer dos 12 meses seguintes à realização do grande evento.

Parte do comércio formal da cidade também se beneficia da festa e sofreu as duras consequências da condição de excepcionalidade com que o evento religioso foi realizado no ano passado. As poucas pousadas e hospedarias, assim como os também reduzidos restaurantes e pensões, que já atravessavam grandes dificuldades e amargavam prejuízos no decorrer da pandemia, receberam em 2021 o chamado golpe de misericórdia.

Um levantamento feito pela prefeitura de Xapuri em 2018, com a ajuda do Sebrae, constatou que a Festa de São Sebastião movimenta mais de R$ 1,2 milhão na cidade durante os nove dias de celebrações em todas as atividades que são desenvolvidas. A não realização dos eventos extra religiosos do evento em 2021 foi o maior impacto causado pela pandemia para o município do ponto de vista econômico.

A festa

A festa de São Sebastião nasceu, segundo relatos orais, no limiar do movimento armado – Revolução Acreana – que deu origem ao processo que mais tarde tornaria o Acre brasileiro. Era 20 de janeiro de 1902, quando um grupo de cerca de 100 pessoas teria realizado a primeira procissão pelas ruas do pequeno vilarejo de Mariscal Sucre, então dominado pelos bolivianos. Oito meses depois, Xapuri foi tomada por Plácido de Castro.

O ato que poderia representar um pedido de proteção contra a guerra iminente – São Sebastião é considerado o protetor contra as guerras e pestes – se tornou a certidão de nascimento de uma das maiores manifestações religiosas de todo o Acre. Do início do século passado até a atualidade, a festa cresceu e extrapolou o caráter meramente religioso, tornando-se, para a população, o seu maior momento de fé e de manifestações de agradecimento.

Além do caráter religioso, a festa também é marcada por eventos profanos. Bailes dançantes, competições esportivas, jogos de azar e uma atração à parte, a gigantesca aglomeração de vendedores ambulantes, conhecidos popularmente como “marreteiros”, que se tornou parte integrante e indispensável para o sucesso anual da festa, que em 2021 teve que se adequar às imposições de um vírus para se manter viva.

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