Game ‘Twelve Minutes’, com elenco hollywoodiano, é um relógio bonito e atrasado

JOÃO VARELLA
FOLHAPRESS – Uma imagem recorrente do jogo “Twelve Minutes” é um relógio de parede. Tal como as engrenagens e catracas do aparelho, a estrutura narrativa do jogo é notável por sua complexidade. Algumas peças obsoletas, porém, prejudicam sua mecânica e atrasam o conjunto.
A trama ocorre numa quitinete habitada por um casal. Com a câmera posicionada em ângulo de cima para baixo (“plongée”) e aberto, o jogador controla o marido, dublado por James McAvoy. Ao entrar na residência, ele é recebido por sua esposa, vivida por Daisy Ridley. Ela está animada para anunciar sua gravidez.

O momento feliz é interrompido por agressivas batidas na porta. É um personagem que se identifica como policial, na marcante voz de Willem Dafoe, de volta aos games oito anos após “Beyond: Two Souls”.
Esse agente misterioso imobiliza o casal. Acusa a esposa de ter assassinado o próprio pai e espanca o marido até a morte. O tempo então retroage, volta ao instante em que o marido entrou no apartamento. Agora ele sabe o que acontecerá nos próximos minutos.

O game aplica ritmo de thriller psicológico para um enredo de ciclo temporal, conforme acontece no filme “Feitiço do Tempo”, na série “Boneca Russa” ou, para citar um jogo, em “Outer Wilds”, que é da mesma publicadora de “Twelve Minutes”, a Annapurna Interactive.

Distribuidora com raízes no cinema, a Annapurna prioriza jogos com ênfase no enredo e na direção de arte. Ocupa um lugar que fora da LucasArts, de George Lucas. Nos anos 1990, a empresa do criador de “Star Wars” ganhou fama por títulos de “point and click”. Como o nome indica, nesse subgênero a exploração se dá clicando em objetos e pessoas, com alguns enigmas no caminho.

Esse estilo se popularizou no Brasil. Uma parceria da distribuidora nacional Brasoft com a LucasArts permitiu a comercialização de jogos como “Full Throttle” com legendas em português, um marco.

“Twelve Minutes” é um “point and click” com jogabilidade atrasada feito relógio sem corda -impreciso no mouse, desajeitado no controle. Adota a pior lição da escola “Destiny” ao colocar um apontador nas alavancas analógicas para as ações. Por mais que este não seja um jogo com alta exigência de precisão e reflexos, é chato.

Na primeira hora do jogo esse defeito não é percebido. É a etapa mais poderosa da experiência. Nesse período estão as descobertas de possibilidades. O que acontece se a opção for se esconder no banheiro quando o policial invade o apartamento? E se comer a sobremesa sem esperar a esposa? Ou regar a planta?

O sistema narrativo composto pelo desenvolvedor português Luis Antonio reage aos testes com naturalidade. Dada a agonia da prisão temporal, até ações drásticas como esfaquear a companheira podem ser cogitadas e realizadas.

Avançar a narrativa é aflitivo, mas nem sempre pelas razões certas. As descobertas se dão na base da tentativa e erro, com algumas soluções obtusas. Nem sempre fica claro que um ato abriu possibilidades nos próximos ciclos, o jeito é ensaiar sem pudores com paciência para esperar o momento adequado.

Jogos como o citado “Outer Wilds”, além de “Return of the Obra Dinn” e “The Witness”, sendo que Antonio participou do último, resolveram essa questão com apuro.

As atividades são reiteradas, algumas delas desagradáveis. É preciso, por exemplo, testemunhar e executar torturas para obter respostas. Ou ainda drogar a esposa que, lembrando, está grávida. Erros exigem recomeçar e aqui o aborrecimento com o controle fica evidente.

Por trás dessas barreiras, há uma história que tem no seu eixo central a linguagem do videogame, afinal, todo jogo é repetitivo. Ao redor, gira um enredo com andamento de livro policial, reviravoltas dramáticas feito um tango -aliás, Carlos Gardel toca no rádio do apartamento- e desenlace freudiano, com espaços vazios prontos para fomentar debates e leituras diversas.

Com sua originalidade, o grande defeito de “Twelve Minutes” é ficar aquém de seu potencial. É menor do que a soma de suas partes, embora esteja léguas à frente do game “Maquette”, maior erro da Annapurna, estrelado por Bryce Dallas Howard. O magnetismo dos astros de Hollywood prejudica o funcionamento do relógio da publicadora.TWELVE MINUTES
Avaliação Bom
Onde Xbox e PC (Game Pass)
Preço R$ 51,99 a R$ 92,45
Classificação 18 anos
Elenco James McAvoy, Daisy Ridley, Willem Dafoe
Desenvolvedor Luis Antonio
Publicadora Annapurna Interactive

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