Lázaro Ramos, na Amazon, diz que em 2022 Brasil tem de conversar consigo mesmo

CAROLINA MORAES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Depois de quase 18 anos na Globo, Lázaro Ramos foi um dos grandes nomes a deixar a emissora e fazer parte de uma migração de peso para gigantes do streaming, que parecem apostar cada vez mais na produção nacional.

Ainda na série “Mister Brau” e em “Medida Provisória”, filme que ele dirige e enfrenta enrosco para ser lançado em circuito comercial, o artista conta que começou a ver seu trabalho num híbrido entre consultoria, atuação e direção –o que o levou a desejar um cargo mais polivalente do que o que exercia na Globo.

“Fiquei em conflito durante o ano, em conversas constantes com a Globo, porque sou apaixonado pelo trabalho que tive lá o tempo todo”, diz o ator em entrevista durante as gravações de “Um Ano Inesquecível – Outono”, sua primeira direção para um serviço de streaming.

Agora Ramos tem um contrato de exclusividade com o Amazon Prime Video por três anos. Na empresa, conta, encontrou a possibilidade de desenvolver seus projetos em funções distintas.

O longa que será lançado em 2022 é o primeiro deles. Faz parte de uma franquia que terá outros quatro filmes, todos dirigidos por profissionais diferentes e baseados no livro homônimo de contos das autoras Thalita Rebouças, Paula Pimenta, Bruna Vieira e Babi Dewet.

Trata-se de um musical rodado em São Paulo, com os jovens protagonistas Anna Júlia e João Paulo vivendo um romance embaixo da chuva na avenida Paulista, no vão do Masp e em outros cenários típicos da cidade.

“Há um grande desafio que é entender o que é um musical desse tamanho feito no Brasil. Demorou um tempo para entender como conceituar isso”, afirma o diretor, que já dirigiu outros dois musicais para o teatro. O país, afinal, acompanhou a enxurrada de musicais, principalmente americanos, que chegaram via streaming nos últimos anos e se tornaram aposta das grandes empresas da área.

“Há algumas composições inéditas, privilegiando a música feita no Brasil sem preconceito com nenhum gênero. Da música pop ao samba, pegando várias gerações de cantores e compositores que marcaram a história da nossa música”, diz ele, que aponta nomes como Cassiano, Péricles, Olodum e Los Hermanos como autores de algumas das canções selecionadas.

Mas o que marca uma espécie de originalidade brasileira na produção, para ele, é a assinatura negra. “Não são músicas apenas de compositores negros, de bandas negras, mas o protagonismo é negro. Isso traz uma força que a gente tem na nossa música, inevitavelmente.”

Essa assinatura também está no elenco e na equipe de “Um Ano Inesquecível – Outono”. “Tenho 22 anos e esse é o primeiro grande projeto de que participo onde a maioria do elenco é negro”, conta Gabz, que interpreta a protagonista.

“É algo que já deveria ter acontecido há muito tempo, porque o nosso país tem maioria negra. Quando o audiovisual não retrata isso, você não conversa nem com o seu tempo e nem com o seu país.”

Lucas Leto, que vive João Paulo no longa, concorda. “Penso que a gente está caminhando para o futuro, onde a gente já debateu e muitos abriram caminhos para a gente conseguir falar de coisa nova”, conta o ator.

Ramos vê mudanças em direção a equipes mais diversas olhando em retrospecto, mas avalia que não se chegou ainda aonde é possível chegar. E, de maneira bastante pragmática, o diretor avalia que essa busca de empresas de streaming e TV por diversidade vem de uma demanda de mercado.

“Estão pegando esse quinhão que durante muito tempo foi relegado, mas que é um mercado importantíssimo e gigantesco. A gente fala como se fosse só uma demanda social apenas, mas não, é também um merecimento desses profissionais todos que existem e uma demanda do mercado.”

Além de montar uma equipe e elenco com maioria negra, Ramos também afirma que tem investido em pesquisas sobre como levar pautas sociais para os trabalhos a partir do entretenimento. “Gosto de falar que sou ativista, essa é a minha vida e história, mas tenho tentado encontrar artifícios do entretenimento como humor e diversão para falar desses assuntos”, diz ele.

O diretor também enfrenta uma crise no lançamento de seu filme “Medida Provisória”, nos mesmos moldes que o filme “Marighella”, de Wagner Moura, teve com a Agência Nacional do Cinema, a Ancine.

No final de 2021, a assessoria de imprensa do longa informou que o longa segue impossibilitado de ter sua estreia no Brasil “apesar dos inúmeros recursos submetidos por suas produtoras e coprodutoras à Ancine para que ele seja liberado em circuito comercial”.

Ramos conta que estão adiando a estreia do filme justamente para poder lançá-lo nos cinemas –mesmo posicionamento de Wagner Moura em relação ao seu longa. Ele também afirma que a situação da Ancine e da gestão pública da cultura no país é trágica.

“Isto é não reconhecer o potencial econômico que o audiovisual traz”, diz ele. “Tem uma questão ideológica aí, de tentativa de silenciamento.”
Nesse cenário de agonia da indústria audiovisual no país, Ramos diz ver com bons olhos a chegada massiva das marcas de streaming no Brasil. “O mercado parou por um tempo e agora tudo que estava represado começou a sair. Não sei até quando isso dura, é um movimento também que precisa se provar viável.”

“Os streamings nesse momento estão tentando pegar o seu espaço, isso só vai permanecer se der resultado, o fato é esse. Mas eu acho que nos próximos anos vai ser o que vai dar suporte para esse mercado, abandonado como está.”

Nesse ano de eleições presidenciais, aliás, Ramos diz que já há discussões dentro da classe artística de como retomar o investimento em cultura num possível outro governo.

“Tenho visto várias iniciativas de forma dispersa, não é unificado, a classe artística é diversa, como é o Brasil. Temos que ver o próximo ano. É um ano muito decisivo para o Brasil voltar a conversar consigo mesmo e não ficar bebendo o drinque do autoritarismo.”

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