Quem decide criar boi não o faz por ser bandido ou burro, diz antropólogo

(FOLHAPRESS) – Quando desembarcam na Amazônia, os antropólogos costumam estudar culturas indígenas ameaçadas. O norte-americano Jeffrey Hoelle, professor da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, seguiu o caminho inverso. Ele se dedicou a entender por que o “ethos” da pecuária, principal vetor de desmatamento da floresta, se espalhou tão rapidamente pela região, inclusive entre os tradicionais seringueiros do Acre.

O resultado está no livro “Caubóis da Floresta: O Crescimento da Pecuária e a Cultura de Gado na Amazônia Brasileira”, recém-publicado pela Edufac (Editora da Universidade Federal do Acre), em versão eletrônica. Trata-se de uma tradução do livro publicado em 2015 nos Estados Unidos, com o título de “Rainforest Cowboys”.

“O desafio na Amazônia é tratar o uso da terra e o desmatamento não apenas como atividades econômicas ou algo que possa ser controlado com tecnologia, repressão e políticas públicas. Precisamos também entender as dimensões sociais e culturais dessas atividades, que têm um papel-chave nesse apelo para derrubar”, afirma o antropólogo de 45 anos.

O trabalho de campo de Hoelle foi no Acre, terra do líder seringalista Chico Mendes, assassinado em 1988. Foi ali que governos estaduais do PT tentaram implantar o “governo da floresta” ou “florestania”, com políticas voltadas para o agroextrativismo.

Em 2018, o Acre deu a maior votação relativa ao presidente Jair Bolsonaro (hoje no PL) no segundo turno, com 77% dos votos válidos. Por outro lado, o PT perdeu a hegemonia no poder estadual após duas décadas.

A Amazônia registrou entre agosto de 2020 e julho de 2021 a maior taxa de desmatamento em 15 anos, com uma perda de 13.235 km². Os números são do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
A seguir, a entrevista concedida à Folha, por email.
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Folha – A grande maioria dos antropólogos vai à Amazônia para pesquisar povos indígenas. Por que o sr. decidiu estudar a cultura do gado?

Jeffrey Hoelle – É verdade que a maioria dos antropólogos vai à Amazônia para trabalhar com povos indígenas. Isso está ligado diretamente ao interesse do antropólogo em entender a diversidade humana, e a Amazônia é um um lugar culturalmente diverso e fascinante.

Isso também está relacionado às inclinações políticas do campo, muitas vezes alinhadas com grupos marginalizados, e com o antropólogo tentando promover a compreensão e o respeito, ou ajudar a defender as populações ameaçadas.

Não sou tão diferente, mas acho que precisamos entender melhor as ameaças contra as culturas e o meio ambiental. Existe um sistema destrutivo que come os mundos. Isso está reconhecido, por exemplo, pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro como um “oceano branco” que ameaça engolir as aldeias indígenas remanescentes, ou o “povo da mercadoria”, do líder yanomami Davi Kopenawa.

Mas o que são, exatamente, essas estruturas que produzem destruição?

Se tentarmos pensar mais especificamente sobre o desmatamento da Amazônia, como podemos entender por que as pessoas escolhem criar gado ou transformar a floresta para outros usos do solo?

Foi o que tentei fazer aqui, ter uma visão antropológica para entender a pecuária no Acre. Queria entender por que fazia sentido econômico, mas também o que significava ser dono de bois.

Isso significou olhar tudo que envolvia o gado –carne, churrascos, idealizações de pasto como belo, as relações entre criação de gado e masculinidade, ideias de desenvolvimento e de progresso, saudade urbana por um rural pastoril.

Ainda que esses elementos possam existir em qualquer lugar onde as pessoas criam gado, eles ganham uma importância adicional na Amazônia, onde a floresta é o obstáculo e a competição.

Folha – Várias regiões do Brasil desenvolveram uma cultura do gado, do Sul ao sertão nordestino. Quais as especificidades da cultura do gado na Amazônia e no Acre?

Jeffrey Hoelle – A diferença é que as variações regionais do caubói no Brasil estão diretamente ligadas às raízes na Península Ibérica, cada uma adaptada a novos contextos ambientais (por exemplo, a vestimenta de couro do vaqueiro nordestino para protegê-los da caatinga).

Mas a cultura do gado na Amazônia não é compreensível em termos de raízes brasileiras. O caubói se parece com o que eu poderia ver na minha cidade natal no Texas: fivela de cinto, botas, jeans, camisa xadrez.

Para entender por que tem isso na Amazônia, e não o gaúcho, é preciso pensar em como esse modelo de caubói chegou aqui. Ele se espalhou dos EUA para o Brasil por meio de fazendas em São Paulo e, principalmente pela cultura pop de Barretos, sua música, sua moda e sua indústria cultural.

Essa cultura chegou ao Acre por meio da migração e do contato direto, e indiretamente, pela TV e pelo rádio. Mas, para entender por que se enraizou e se espalhou, é preciso considerar o significado dos caubóis como um modelo cultural importado. É uma identidade rural assertiva, que se orgulha e não se desculpa por ser rural. Dá ao pecuarista, mas também à população rural em geral, uma forma de se expressar que não é ridicularizada e também não se limita a uma região específica, como o vaqueiro ou o gaúcho.

Agora, a pecuária ganha uma dimensão específica na Amazônia, onde o estabelecimento de pastagens exige o corte da floresta. A floresta, e por extensão o “mato”, é o competidor. Criar um “pasto bem limpinho” no meio da mata é visto como uma grande conquista. Isso mostra a todos que essa pessoa é muito trabalhadora. Eles estão contribuindo com a missão de desenvolver a Amazônia e ajudar o Brasil a chegar onde deveria estar no mundo!

Folha – No Acre, a expansão da pecuária bovina em larga escala alimentou os ataques dos fazendeiros a seringueiros, culminando no assassinato de Chico Mendes e na criação da Resex com o mesmo nome. Por que muitos dos antigos seringueiros e seus descendentes passaram a criar gado?

Jeffrey Hoelle – Para os seringueiros mais antigos, a adoção da pecuária foi uma decisão difícil. Eram seringueiros que conheceram a floresta e lutaram para defendê-la. Mas a ideia que alguns de nós podemos ter sobre o seringueiro como sinônimo de extrativista não é necessariamente como muitos deles se veem. Criar gado não é necessariamente antiético, mas as manchetes fazem parecer assim.

Em segundo lugar, os tempos mudaram. Os produtos florestais, principalmente durante o período de minha pesquisa, estavam em declínio ou diminuindo sua importância em relação ao gado. Os seringueiros se depararam com difíceis decisões de tentar lucrar apenas com o extrativismo ou diversificar de alguma forma para ganhar mais dinheiro, e isso poderia ser por meio do gado ou do trabalho assalariado. Muitos fizeram um pouco de ambos. Alguns resistiram ao gado, mas eu vi essa mudança ao longo dos anos.

Os jovens podem ter ouvido falar de Chico Mendes, mas não eram tão comprometidos com a identidade de seringueiro. E é importante mencionar que, apesar de toda a propaganda que o governo fazia para promover os seringueiros, ser seringueiro não é exatamente um elogio no Acre.

Para eles, a adoção de gado não seria uma oposição ideológica. Seria visto como um avanço no mundo. Mas, se só perguntamos: “Você é seringueiro? Gosta da floresta, né?”, quem vai dizer não? Temos de entender as pressões que enfrentam e as mudanças internas e reconhecer que eles precisam de apoio, e não de nossos sonhos de guardiões da floresta.

Folha – Em 2018, o Acre, um antigo reduto do PT, surpreendeu ao dar a maior votação a Bolsonaro no segundo turno, proporcionalmente. Trata-se um reflexo do avanço da pecuária no estado?

Jeffrey Hoelle – Quando visitei o estado no início de 2018, todos falavam sobre o crime e gangues. Não sei como as pessoas votaram no Brasil (nem no meu próprio país), mas sei que elas estavam insatisfeitas. Eles queriam melhorias e não havia muitas opções.

No livro, falo sobre o apelo a uma época de ouro em outras partes do mundo e como isso se relaciona com o Acre e a fronteira. As pessoas querem que as coisas sejam como antes ou, mais precisamente, como imaginam que as coisas seriam se fossem melhores. Eles querem usar a terra da maneira que acharem melhor. Eles querem um pasto limpo, ruas seguras e boas escolas. Mas também, até certo ponto, um mundo que se parece com o passado. Querem um pouco de controle sobre suas vidas.

O que pude ver é como o ressentimento com a fiscalização ambiental, que frustrou os impulsos para acúmulo, expansão e autossuficiência, se misturou com outras esferas de descontentamento. E Bolsonaro prometeu liberar, fazer as coisas como antigamente.

Folha – Em que medida a migração de extrativistas para a criação de gado é decorrente da ausência de políticas públicas?

Jeffrey Hoelle – Os produtores rurais quase sempre se ressentem da falta de apoio do governo. O fato é que é complicado apoiar as comunidades rurais na Amazônia.
No caso do Acre, isso ocorreu, mas o governo tentou de fato apoiar o extrativismo. A castanha-do-pará era forte em todas as comunidades, e as comunidades onde eu trabalhei extraíam borracha para o projeto Natex [fábrica estatal de camisinhas].

Sempre se pode culpar ao governo. Mas nessa época era óbvio que o Governo da Floresta [em administrações petistas do Acre entre 1998 e 2011] tentou fazer algo.

É preciso lembrar também que era uma nova maneira de fazer as coisas. Tentar apoiar as pessoas e a floresta ao mesmo tempo é um grande passo, e vai de encontro à maneira como os humanos têm feito assentamentos na fronteira agrícola há anos.

O que o governo fez pode não ter sido suficiente, houve a tentativa. E isso foi parte de um momento maior, por volta dos anos 2010, quando as políticas e programas socioambientais estavam se espalhando pela Amazônia, e as taxas de desmatamento estavam diminuindo. Os especialistas previam um possível fim do desmatamento na região, graças às políticas públicas e à fiscalização dirigidas à Amazônia.

Avançando para o fim da década, o desmatamento está em alta. Bolsonaro teve um papel nisso por meio do seu discurso e do desmantelamento de instituições-chave. Mas as taxas de desmatamento começaram a crescer bem antes de ele assumir o poder.

O desafio na Amazônia é tratar o uso da terra e o desmatamento não apenas como atividades econômicas ou algo que pode ser controlado com tecnologia, repressão e políticas públicas. Precisamos também entender as dimensões sociais e culturais dessas atividades, que têm um papel-chave nesse apelo para derrubar.

Folha – Qual o seu conselho para o discurso ambientalista, que não consegue penetrar na opinião pública amazônica?

Primeiro, é preciso entender a perspectiva local. Por que as pessoas criam boi? Não são decisões de bandidos ou de pessoas burras. Tente se colocar no lugar delas. Criar boi faz sentido porque uma pessoa distante vai comprar a sua picanha. Faz sentido criar pasto porque agora tem terra “melhorada” que vale mais e dá uma base para titular a terra. E faz sentido pelas muitas razões que explico no livro.

Agora, faz menos sentido para todos nós, no longo prazo. Então, primeiro, é preciso entender. Depois, trabalhar para mudar as estruturas. Isso é algo que as pessoas ricas e pobres afirmam: a criação de estruturas eficazes para coagir ou incentivar. Essas estruturas têm de ser justas por meio dos vários atores da Amazônia, mas também em relação às outras regiões do Brasil e ao plano internacional.

Jeffrey Hoelle, 45
Formado em psicologia na Universidade Southwestern, tem mestrado em estudos latino-americanos pela Universidade do Texas em Austin e doutorado em antropologia pela Universidade da Flórida. Desde 2012, leciona na Universidade da Califórnia em Santa Barbara

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