Velório de Elza Soares se encerra no Rio ao som de ‘A Mulher do Fim do Mundo’

GUSTAVO ZEITEL
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Da praça da Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, um popular tocava com seu trompete a melodia de “Se Acaso Você Chegasse”, de 1960, primeiro grande sucesso da cantora Elza Soares, morta aos 91 anos nesta quinta-feira. Sob sol forte, as centenas de pessoas que formavam a fila para se despedir da artista, velada no foyer do Theatro Municipal, aplaudiram a homenagem.

O velório, que começou pela manhã, se encerrou no início da tarde com uma homenagem do elenco do musical sobre a vida da cantora que estreou há quatro anos. Os atores entoaram composições de Chico Buarque que fizeram sucesso na voz rasgada da cantora, “Dura na Queda” e “O Meu Guri”. Por fim, cantaram “A Mulher do Fim do Mundo”, do álbum homônimo, lançado em 2015.

Quando o evento foi aberto ao público, sete coroas de flores adornavam o espaço ao redor do caixão. Cerca de duas horas depois, ali ainda estavam uma escultura de são Jorge em seu cavalo, além de mais quatro coroas de flores -uma delas enviada por Zeca Pagodinho e a outra, pelo Clube de Regatas do Flamengo. Após uma bandeira do time ser estendida sobre o corpo da cantora, o público puxou uma salva de palmas em honra a ela.

As coroas dividiam espaço com integrantes da Mocidade Independente de Padre Miguel, escola de coração da cantora. Elza desfilaria mais uma vez pela Mocidade neste ano. Vice-presidente da escola de samba, Luiz Cláudio Ribeiro disse que, quando recebeu a notícia de que o enredo versaria sobre Oxóssi, ela logo quis participar -sua mãe de santo era justamente Stella de Oxóssi.

A cantora fecharia o desfile, no último carro alegórico. “Agora já estamos pensando de que forma, sem a presença física de Elza, fecharemos o desfile. Será uma grande homenagem”, diz ele, acrescentando que a história da escola de samba se confunde com a figura de Elza.

Para evitar aglomerações, os fãs entravam um a um no teatro e logo cediam a vez para o próximo se despedir da cantora. Todos os portões do Municipal estavam abertos, permitindo ventilação no local.

O prefeito Eduardo Paes , que anunciou nas redes sociais luto de três dias na cidade pela “perda dessa grande carioca”, esteve no local pela manhã e destacou a relação da cantora com o Rio. “Todos nós estamos tristes, mas é dia de celebrar a vida dessa mulher, a força que nasce das periferias e da mulher negra”, disse.

Seu secretário de Cultura, Marcus Faustini, também passou por ali e destacou o exemplo deixado pela artista. “Elza Soares foi um exemplo do poder do canto brasileiro”, afirmou.

Mais cedo, Vanessa Soares, neta mais velha de Elza, comentou a trajetória da avó, que teve oito filhos, oito netos e seis bisnetos. “Minha avó deixa como legado mulheres fortes. Famílias de mulheres fortes.”
Antes da abertura do velório da cantora ao público, Pedro Loureiro, empresário da artista, lembrou que o último desejo de Elza, gravar o derradeiro DVD da carreira, foi cumprido pouco antes de morrer, nos dias 17 e 18 deste mês. “Ela estava muito bem de saúde e teve performances fantásticas”, disse. Segundo Loureiro, Elza teve uma morte serena. Pouco tempo antes da chegada da ambulância, a cantora disse a Vanessa “estou indo embora”.

Para Loureiro, o Brasil demorou muito para reconhecer o talento da cantora. “Só nos últimos seis anos ela chegou ao apogeu que ela merecia. A gente não sabe ser país ainda.”

Muito emocionado, o casal de atores Lázaro Ramos e Taís Araújo chegou ao Municipal no fim do velório. “Difícil conseguir definir Elza em uma palavra. Ela era um exemplo no ativismo, na música para todas as gerações”, disse Ramos. “Elza preparou o terreno para nossa geração e para outras que virão. Não queríamos que ela tivesse uma vida de tantas lutas, mas ela teve muitas glórias também”, afirmou Araújo.

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